Total Pageviews

Monday, May 29, 2017

Livro: Mulheres que Amam Demais (e um sincero relato de um coração curado)


Há cerca de um ano atrás, estava em POA por compromissos sindicais, para passar 15 dias. Fui-me com as malas, o cachorro e o coração partido, de modos que uma fuga rápida de casa e das obrigações, me parecia uma ótima ideia.
Lá, fiquei na casa de um casal que aceitava meu cachorro e, tinha na sua sala, uma vasta biblioteca. Ele é bancário, ela é dos sistemas de informação, e como eu, militantes e ativistas, acabam tendo nas estantes alguns livros interessantes sobre questões da humanidade que tocam a gente.
Entre eles, esse livro que li pela primeira vez lá, e me interessei imediatamente, pelo momento pessoal em que estava passando. Não sei se algum dia, vou ter a capacidade de escrever de forma resumida sobre o que os anos de 2015 e 2016 foram para mim, mas considero que foi um mergulho de olhos abertos na minha própria escuridão.
Sou muito reticente com autoajuda e com livros que se propõem a medicalizar as questões relacionadas a codependência, transtornos mentais e dependência química – na sua maioria, são livros com uma forte carga moralista e deterministas, que paralisam as pessoas nas suas castrações. Mas no ápice do cansaço em que me encontrava, de todos os inúmeros livros disponíveis, foi esse que abri.
Marquei e grifei inúmeras passagens e, durante os dias em que estava lá, a cada 3-4minutinhos livres que tinha, abria meu livro e dava mais uma lida. Traçando um paralelo entre as diversas mulheres codependentes químicas que a autora tratou em consultório e em grupos, ela agrupou uma quantidade de casos que considerou mais exemplares e classifica (sim, não posso negar) alguns dos casos mais comuns de mulheres que “amam demais” – ou que, no caso, amam-se de menos e expressam isso de forma destrutiva nos seus relacionamentos todos, principalmente no amoroso.
Foi ali que comecei a perceber e entender a quantidade de culpas que carregava sem nunca ter tido, no meu papel familiar (ainda quando criança) e em meus relacionamentos posteriores, quando adulta. Até chegar nesse último que, já terminado, eu não conseguia terminar. Não por amor, mas por culpa. Por resistência, e certamente, por pouco amor por mim mesma.
Foi naquela semana, depois de ler que o meu próprio cuidado deveria ser prioridade, que me vi pensando: ótimo, depois de voltar para casa, resolver as pendências XYZ, posso marcar a consulta tal para mim. E o livro me responde, no parágrafo seguinte: se isso te pareceu muito urgente, pense na quantidade de esforços que já fez para que ELE mesmo se cuidasse.
E aí a luz me cegou: ali eu me vi, há meses, muito provavelmente anos, sempre cuidando e me preocupando com uma série de novas estratégias e técnicas que poderiam curar todas as pessoas ao meu redor, que eu pesquisava, indicava e recomendava a todo mundo – mas nunca fazia por mim. Se fazia, abandonava pelo caminho. Porque afinal de contas, eu poderia cuidar de mim “depois”.

Depois do que? De QUEM?

Passei momentos de raiva, de tristeza, de revelação. Mas principalmente, passei a sentir dentro de mim a potência que é saber que tudo aquilo que eu tentava proporcionar aos outros estava ali, disponível para mim, desde que eu aceitasse o que eu mesma poderia me oferecer.
E diariamente, após a leitura desse livro, comecei a me policiar, todos os dias, a me tratar com o mesmo afeto e deferência que tinha pelas pessoas ao meu redor, que pareciam não reconhecer todos os meus esforços.
Cada vez que pensei em presentear alguém, me dei um presente. Cada vez que pensei num tratamento alternativo, marquei para mim. Cada vez que tive vontade de aconselhar ou acarinhar alguém, fiz por mim. Cada vez que li sobre alguma inovação importante que facilita a vida, apliquei-a em minha própria vida.
E o resultado disso foi que minha vida ensolarou outra vez. Experiências estavam novamente gratificantes e disponíveis para mim, os dias de alegria, de riso e de cura eram meus. Eu estava pela primeira vez sentindo a vibração e o alívio da cura em mim mesma, e não em outra pessoa.
Como Assistente Social, como ativista, como pessoa preocupada com todo mundo ao meu redor, posso afirmar sem nenhuma sombra de dúvida: nada é mais gratificante do que presenciar a sua própria cura. A cura de ninguém é tão poderosa quanto a nossa própria – ainda mais se tem a nossa própria intervenção.
Salvar a mim mesma foi a coisa mais bondosa e enriquecedora que já fiz. Eu talvez teria feito isso sozinha, sem a leitura? Provavelmente sim, mas naquele momento, as palavras me tocaram de uma forma permanente. Lembro que, junto do livro, começaram a aparecer pela internet afora, relatos de pessoas aprendendo a se amar e a cuidar de si próprias. Parecia que todo mundo estava começando a olhar para dentro de si. Todas essas pessoas me inspiraram e, sei que naquele período, também inspirei outras.
Hoje estou escrevendo longamente sobre esse livro, mas principalmente sobre mim, porque senti que falamos pouco, muito pouco sobre o durante. Li esse texto da Mafalda e me senti tocada pelo relato claro, limpo e objetivo do que foi atravessar uma série de tristezas, decepções.
Dessa história que vivenciei, levei exemplos que para o resto da vida vão me acompanhar e servem pra aconselhar a mim mesma e tantas outras pessoas ao meu redor. Que não me importo em compartilhar, na sua maioria, se ajudarem mais pessoas a terem mais cuidado consigo próprias.
O link para o pdf do livro é fácil de encontrar online e gratuitamente, e eu não me importo de encaminhar por e-mail a quem me solicitar. Espero que, mesmo tão vago, meu textão tenha utilidade para alguém mais além de mim.

No comments:

Blog Archive