Total Pageviews

Tuesday, September 29, 2015

Filme: Que Horas Ela Volta?



Assisti esse filme sábado passado no cinema, e confesso que minha noite acabou depois disso. E que chorei copiosamente no cinema.
Dito isso, vamos ao resumo: Val é empregada doméstica de uma família de classe média que recebe sua filha na casa dos patrões, para passar uns dias. A moça ao chegar questiona a relação trabalhista e familiar com Val e com ela mesma, em várias cenas constrangedoramente comuns nas casas brasileiras.
A atuação de Regina Casé está um desbunde, mas no geral todo o filme é muito bem-feito e merece cada prêmio que ganhar. Porque cada cena, cada diálogo, é um dedo na ferida sobre a relação tão comum nos dias de hoje ainda no Brasil, cheia de vestígios do período da escravidão nada sutis.
O filme mostra através da fotografia aquela casa e família sob os olhos de Val, que enxerga seus bastidores, seus defeitos, suas necessidades de manutenção e sua decadência. A decadência da casa revelava para mim a decadência da classe média brasileira, tentando se mostrar atual e ainda de alguma forma parte do que é vivo na humanidade. Tenta, mas não consegue, pois todos os seus "princípios" e tentativas de oxigenação se asfixiam quando se confrontam os interesses de classe; seu verniz arranha rapidamente, quando o que se apresenta é a ameaça de seus pequenos confortos, de sua hierarquia silenciosa. Gramsci, um autor que estudei no Serviço Social anos atrás, tem uma expressão para falar dos filhos da classe média: os mamíferos de luxo, pessoas cuja contribuição social são nulas, parasitando o trabalho alheio e gerando um peso maior no fardo da humanidade. Os patrões de Val são os mamíferos de luxo retratados em todas as suas forças e fraquezas patéticas, rapidamente perdendo a linha quando tirados de seu estado de conforto e posição hierárquica.
Acho que a Jéssica, personagem que faz o papel de mexer com tudo, seria talvez a menos interessante de todas, mas que cumpre aquele papel de ser a escada para todos os outros se revelarem. 
Arrancou muitas lágrimas de mim, saí do cinema arrasada pela cruel realidade de como o trabalho doméstico é tratado em nosso país. Pensei em quantas mulheres já conheci nessa condição e quantas inclusive já cuidaram de mim nesta relação que é trabalhista mas que nunca é só isso. Em todos os símbolos que ninguém questiona: uma comida para ela, outra para eles, uma área da casa é para ela, outra para eles, um curso de faculdade é para a filha dela, outra para o filho deles. Os referenciais estéticos: as coisas que Val escolhe para si, para a filha, para a sua casa. Por outro lado, as coisas que a patroa escolhe. 
É tudo perturbador e muito cru, mas algo é mais que tudo: perceber a reação das pessoas na sala de cinema. Perceber quando elas riram, quando demonstraram revolta, e que ninguém demonstrou emoção. Seria eu a única pessoa naquela sala incomodada com o fato de que isso ainda seja uma realidade tão disseminada em nosso país?
Ainda está nos cinemas. Assistam!

No comments:

Blog Archive