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Monday, November 24, 2014

A maldição da cozinheira rabugenta

Segundo meu próprio conto de fadas, sou a rainha das especiarias e das frutas misturadas com legumes, do doce com salgado e por aí vai. Se um dia você comer um mero espaguete a bolonhesa meu, vai provavelmente ficar frustrado porque vai sentir um toque lá no fundo de canela sem entender direito o motivo (mas já adianto que pus canela). 
Daí no conto, preciso alimentar apenas um único reizinho, e ele é faminto, guloso, e muito cheio de apetite. Ele adora quando tem curry de maçã, adora quando tem bolo funcional de banana, quando tento fazer meus primeiros gnocchis (e ficam feios, mas levíssimos) e come com gosto meu pudim de quatro leites, reinvenção de minha mãe que tropicalizei com coulis de limoncello e mangas cortadinhas no lugar dos mirtilos. Ele aprecia meus brigadeiros, come feliz meu cachorro-quente e a única coisa que se negou a aceitar (mas provou e admitiu que o gosto era bom) foi meu steak-tartare de mignon, pois é gaúcho e para ele as carnes precisam ser assadas.
Neste conto-de-fadas, a vilã é uma bruxa daquelas narigudas, magricelas, e com verruga, e certamente é igual à da história de João e Maria: ela cozinha muito bem, e não suporta o fato de ver o rei se fartar com as comidas que lhe dou. Então ela entra silenciosamente em minha cozinha, e esconde o gengibre, fazendo com que eu tenha um ingrediente fundamental da minha chaufa faltando, esconde o curry bom, deixando um que amarela mas não dá gosto, e sussurra para mim ao mercado que as cenouras não são tão importantes assim. 
É ela que me dá pequenos tapinhas nas mãos e me faz desequilibrar as panelas, que vergam perigosamente sobre as bocas do fogão, e ainda que me some com a tesoura quando quero picar cebolinhas perfeitas. Devido a ela, de vez em quando não peneiro o fermento, e sirvo-lhe um bolo com uma bolinha branca bem no meio, não muito agradável de se ver. Para seu desespero, no entanto, o reizinho tira a bolinha com a ponta de uma faca e devora o restante todo do bolo como se nada fosse. E pede mais, mas acabaram-se os ovos.
Daí que ontem, preparando essa chaufa do conto de fadas, fiz ela sem o gengibre, o que me frustrou, e com um curry sem sabor, e isso me frustrou duplamente. Ele mesmo assim repetiu três vezes, e tendo sobrado uma porção, pediu para levar de almoço. Mas já era a minha porção de almoço, e por mais que eu insistisse em dividir, ele me deu inteira. E hoje, quando fui comê-la, encontro dois pequenos boicotes que ela me deixou: um fio de barba do reizinho, que anda bem parecido com a Fera do outro conto, precisando aparar, e o mais chocante, um grampo de grampeador - o qual lembro bem, fazia parte de um saquinho plástico de temperos que estava manuseando. 
Ela morre de ciúmes dele, de seu olhar comprido para o pudim, de suas incursões à cozinha antes de dormir e de sua boquinha cheia de bolo, que tenta disfarçar e fingir que não pegou 'mais um pedacinho'. E é por isso que me põe grampos na comida, além de fios de barba, que caem enquanto estou ali mexendo a colher de pau e ganhando os beijinhos que me chegam por trás até as bochechas. 

Ou é isso, ou então eu sou muito distraída.

2 comments:

Taís Moreira said...

rsssrsrsrsr acontece!

uaifai said...

Tente misturar espinafre nos seus gnoches. ;)

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