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Friday, August 23, 2013

Eu jogo comida fora, e você?

Fui criada numa família muito católica e numa geração em que comer bem era comer bastante. Bochechas redondas e coradas serviam como indicador de saúde das crianças, e era importante 'comer de tudo'. 
Apesar de hoje ser uma compulsiva por tudo que se denomina comestível, eu era uma criança bem normal para comer - por normal, leia-se chata. Eu não apreciava legumes, verduras, tinha estranheza a algumas frutas e adorava comer besteiras. As besteiras eram rigorosamente controladas por meus pais, e mesmo assim eu posso dizer que comi diversas - não podia ter uma moedinha na mão que já transformava em chicletes. Meu sonho infantil, caso ficasse milionária, era ter uma casa cheia dessas guloseimas (meu sonho de adulta, caso fique milionária, ainda é uma casa cheia de guloseimas, mas agora de outro tipo).
Quando eu eventualmente não comia a minha parte na comida correta, balanceada do cotidiano, era comum que minha mãe dissesse que era pecado jogar comida fora, e apelar para 'as tantas crianças passando fome'. Nunca funcionou muito bem, mas quantas casas brasileiras na década de 90 não eram exatamente iguais?
Quando o tempo passou e eu cresci, embora tenha me tornado ateia e não ligue para o conceito de pecado, e entenda que para ajudar as 'tantas crianças passando fome' eu não tenha que entuchar o meu estômago com comida, eu fiquei com alguma coisa lá dentro de mim me impedindo de jogar comida fora. De modos que caso eu pedisse uma pizza gigante e ganhasse um refrigerante, teria que comer e beber daquilo por dias, teria que comer o pacote inteiro de Passatempo mesmo já tendo matado minha vontade na segunda bolachinha, tendo que comer os três pães restantes do saco se alguém tivesse deixado eles para trás.
Daí que a partir de um determinado momento, não sei bem como, eu passei a jogar as coisas fora. Não assim, sistematicamente, comprando ou ganhando para depois jogar fora. Porque eu planejo as compras, recuso presentes e não costumo ter muitas sobras de comida. Mas por exemplo, quando me esqueço de avisar na pizzaria que não quero o refrigerante de 600ml de brinde, eu bebo um copo (porque é Pureza, e nem eu resisto a uma Pureza) e jogo imediatamente o restante da garrafinha no ralo da pia. Houve um tempo, espero que não volte mais, em que pedi pizza pelo telefone várias vezes, e foram várias garrafinhas. A pizza de quatro fatias que mando vir em casa me custa sempre os mesmos R$25,00. Caso eu vá aumentando o tamanho, o preço vai diminuindo, podendo eu pagar R$30 por oito fatias e ganhar um refrigerante maior. Mas hoje em dia não sinto mais essa economia como obrigatória. Talvez quando eu tiver mais gente comigo, volte a valer a pena. Caso eu resolva comer um lanche na rua, e sobre parte dele em meu prato, ao contrário de outros tempos, eu não me interesso mais em embalar para levar. Ele fica lá (às vezes levo a carne enrolada num guardanapo para alimentar os cães). E finalmente consigo abrir meu pacote de Passatempo, comer as três bolachinhas de abandoná-lo em algum lugar - geralmente na repartição, mas pode ser em qualquer outro lugar. E se não tiver esse lugar, podem apostar: ele vai direto pro lixo.
Pode parecer um ode ao desperdício escrever essas coisas, mas preciso muito falar sobre como me sinto bem em não ser obrigada a comer tudo. Em não sentir a pressão de comer 'para não jogar fora'. Porque demorou vários anos até eu perceber que quando eu como para não jogar fora, eu estou jogando fora...só que pra dentro! Estou colocando em meu corpo algo simplesmente para não pôr no lixo, como um dique entre o produto e o lixo. A última opção daquele produto antes do lixo sou eu - e não consigo deixar de pensar que isso é tratar a mim mesma um pouco como o lixo. 
Acho que não custa nada reiterar: eu não desperdiço de propósito. Eu não compro coisas a mais, eu não trago para casa doações de coisas a mais. Tudo aquilo que eu posso redistribuir eu o faço. As coisas que posso transformar em outras, congelar para um outro momento, dar a alguém ou qualquer outro destino, ganham esse destino. Mas por experiência própria quero dizer que as pessoas também têm lá seus pruridos e não costumam aceitar sanduíche mordido por outrem, refrigerante entreaberto e meio choco, e que na repartição (meu grande desaguadouro de sobras) ficaria bem estranho eu abandonar uma dose de caldo de peixe que alguém me deu em excesso, uma fatia de pizza de ontem, um bife à parmegiana ou coisa do tipo. Da mesma forma, quando vou lá fazer uma experiência ótima de um crumble de tofu que só eu consigo comer uma única porção, por dó da gororoba, não passo ela adiante, uma vez que até para mim ficou ruim demais. 
Não sei porque, mas me parece que se eu não fizesse esse parágrafo inteiro, ia ter que ler gente falando que é radicalmente contra o desperdício, quando não é disso que estou falando. Estou falando de uma única adulta sozinha para comer que não dá conta de comer tudo nas porções pré-determinadas pelo mercado. E que não come tudo até o fim apenas para não pôr fora. Que nas ocasiões em que por distração ou imposição, tem sobras de comida, e esgotadas suas opções de repassar adiante, aí sim, não sente culpa em jogar fora.
E que se sente muito liberta por ser capaz de fazer isso!

5 comments:

Pattr!cia said...

Olá... cheguei por aqui pelo blog Neanderthal.
Entendi a sua colocação. Não sou católica e sigo outra religião desde pequena e também foi embutido em mim o "pecado".
Respondendo a sua pergunta: Eu não jogo comida fora em casa, mas jogo todos os dias metade da minha marmitex que já é a pequena. Eu como o necessário. O resto eu jogo. Jogo pq não tenho a quem oferecer. antigamente eu alimentava um cachorro que aparecia aqui na frente do escritório, ele sumiu.
Em casa eu guardo. Guardo até quando eu morava sozinha. Mas é cansativo comer por três dias seguidos pizza ou qualquer outra coisa.
Antes eu jogava sem pena. Mas depois que comecei a frequentar uma casa com crianças carentes e vê-los quase que se matando por um pedaço de bolo, me senti culpada.
Não vamos matar a fome do mundo não jogando um restinho fora. O problema da fome no mundo é muito mais em baixo.
Mas a culpa pesa.
Se você não sente essa culpa, ótimo! Acho que isso é uma questão de bem estar. Principalmente em não jogar a comida para dentro e prejudicar o próprio corpo com isso só para não jogar esse restinho.
Eu me sinto bem guardando. Mas sinceramente chega uma hora que não tem jeito... se não comer estraga. E ai? Tem mais culpa quem joga dando a possibilidade de alguém pegar enquanto há tempo, ou quem deixa em casa para estragar?

Bêjo

Cristiano said...

Ta ai uma coisa que não gosto eh jogar comida fora. Vejo eu jogando dinheiro no lixo.

Bah said...

Namorido aqui veio dessa criação. Não que lá em casa fosse diferente. Sempre aprendemos a comer pouco, o tamanho do prato ou ate menos. Namorido não sabe deixar sobras, ele precisa comer tudo pra não deixar nada sobrando pq é pecado. Pra mim, as sobras são guardadas pra comer mais tarde.

Kisu!

Neanderthal said...

Eu também como pra não jogar fora. Acho que já escreví sobre isso. Uma vez passei mal por causa desse meu hábito! E é algo tão internalizado, que muitas vezes tenho vergonha de deixar comida e até mando guardar pra levar pra casa.
Taí uma das causas que dificultam a minha dieta.
A forma que encontro de evitar isso é botar o prato ou escolher somente algo do tamanho da minha fome. Assim evito passar por isso. Pq por mais que eu me esforce, não consigo deixar comida no prato.

Hellz. said...

Tenho esse tipo de problemas. Por muitas vezes não estou com fome, mas para não jogar fora ou estragar, me obrigo a comer tudo mesmo sem vontade :(

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