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Tuesday, March 05, 2013

Bem-vinda, coragem


Fazem algumas semanas ocorreu um fato muito significativo em minha existência. Sei que minha dileta assistência fica neuvosa quando eu escrevo por códigos, mas não poderia escrever sobre isso sem arrumar muita confusão na vida real. O fato é que durante muito, mas muito tempo mesmo, houve uma determinada atitude de determinada pessoa que me assustava. Assustava é um eufemismo: eu ficava genuinamente aterrorizada, cheia de pavor, angustiada, com uma raiva surda, que nunca parece passar. Nunca vou esquecer de quando, nem onde, nem como e nem porquê cada uma dessas coisas aconteceram. Elas também ajudaram a me definir, porque acho que os nossos medos também nos definem. A hora que a gente se encoraja a enfrentá-los também.
Esse medo, esse turbilhão de sensações que sempre me acompanhou, sempre foi motivo de muita angústia: o fato de não encará-lo de frente e de ficar paralisada a cada vez que ele se manifestava me fazia quase tão mal quanto o motivo que o desencadeava. Desde muito pequena me imaginava reagindo, enfrentando, aniquilando esse pavor que sombreia tantas das minhas lembranças. E a cada vez, mesmo depois de adulta, que não fui capaz de fazê-lo, voltei a me sentir aquela criança indefesa e sem forças que eu era. O medo que minou minha ousadia, minha coragem, que serpenteou todo o rio da minha vida, que me tornou tão contraditória: tão dura e ao mesmo tempo tão vulnerável. Ele, sempre ali, sempre o medo, me assustando, me sobressaltando. Ele me fez ter um descrédito absoluto na humanidade de conjunto, e por mais que estude sobre isso, por mais que tente entender os mecanismos desse medo, nunca fui capaz de trabalhá-lo aqui comigo, concretamente.
A novidade é que algumas semanas atrás, o motivo desse meu medo todo (que não é nada irracional como meu medo de anões, por exemplo) se apresentou outra vez. Mas quando isso aconteceu, dessa vez, eu não deixei que ele me encurralasse: eu firmei o pé e encarei, finalmente, toda a sua magnitude. Eu queria gritar ao mundo todo que eu era capaz, mas acho que ninguém no mundo entenderia. Bom, na verdade sim. Várias pessoas me entenderiam. Mas apesar de ter sido corajosa, sinto que não poderia ainda contar para ninguém esse meu feito de coragem: não sem contar qual era o medo anterior a ele. Esse medo é muito meu, sabem. Quando o enfrentei, naquele famigerado dia, me dei conta de que só ali, naquele dia, eu tinha condições de superá-lo. Não antes, nem depois. E fui embora, muito decidida a nunca mais me deixar amedrontar.
Isso significa que muita coisa mudou. Mesmo. Não nas coisas externas, não nos motivos do medo: isso eu acho que não posso mudar. Mas quando eu finalmente vi que podia mudar o meu medo, eu me libertei. Não é tudo que a gente altera quando altera a nossa perspectiva sobre as coisas; aliás, a maioria não é assim. Nesse caso, no entanto, ao alterar minha perspectiva sobre as coisas, alterei significativamente o rumo da minha vida.
Tem certas decisões que, quando a gente toma, não têm mais volta. Essa é uma delas. É uma decisão que já estava tomada há muitos anos, mas sem condições de ser operacionalizada. A hora, finalmente, chegou. E como disse o Clube da Esquina, eu sei que nada será como antes, amanhã.
O gosto da liberdade de quem saiu daquilo que lhe aprisionava é agridoce. Embora seja bom se ver finalmente liberta, não é possível esquecer cada sorriso e inocência roubados pelo medo. E a adulta daqui nunca vai poder perdoar o que a menininha de lá sentiu. E sabem, tem mais uma coisa: o medo, quando se alastra, ele mata todo o resto ao nosso redor. Deve ser por isso que, há tão poucas semanas, me sinto tão viva, tão dolorosa e deliciosamente viva.
Abaixo a todos os seus medos!
Ps – depois de ter superado o maior medo de todos, me sinto apta a superar o medo de anões. Quem viver, verá.

12 comments:

Anonymous said...

Bom primeiro meus parabéns, segundo fiquei curiosa pra saber que medo era esse e pq ele era tão grande? :-)
Na faculdade onde estudei tinha uma anã e eu tinha dó dela pq ela não conseguia alcançar a pia do banheiro direito...e eu sempre trombava com ela lá!

Fulana said...

Anônimo, diga você quem é! :)

Cambaxirra said...

Ai, mulher, curiosidade mata mesmo!!! Ou quase, tb fiquei doida pra saber que medo é esse... :P
Mas olha, encho a boca para te dar os parabéns por ter superado esse medo. Eu tenho tantos, com os quais convivo, mas não consigo enfrentá-los nem me livrar deles, acabo fingindo que eles não existem, que não estão por ali. Daí, quando eles eventualmente se manifestam, eu faço cara de paisagem e desvio. Claro que sei que não é assim que eles vão se resolver, mas de outro medo, por enquanto, eu não sei lidar com eles. Parabéns, mais uma vez!

Cambaxirra said...

*de outro modo (não de outro medo, aff, é muito medo junto.... :P)

Anonymous said...

Oieee...voltei...sou apenas uma leitora que encontrou seu blog por acaso e gosta muito da sua forma de contar as coisas! Não te conheço pessoalmente e aliás desconfio que estou bem longe de onde vc mora. Sou do Nordeste! :-)

Anonymous said...

Eu não tenho blog, nem id, nem nada disso...rsrs...nem entendo muito mas de vez em quando venho aqui comentar. Não sei se isso incomoda! :-)

Taís Moreira said...

Tb queria saber qual era esse medo! Mas me identifiquei mto. Passei por algo semelhante, embora talvez o medo não fosse o mesmo, era algo desde criança. E estou escrevendo sobre o livro da Gabrielle Bernstein, q é justamente sobre vencer o medo e como isso nos transforma. 5a tá no blog. Beijos da Taís.

Luana said...

mata e cobra e mostre o pau! Qual era o medo, afinal?

Neanderthal said...

To com a Lu. Vc fala, fala, fala... Mas não via nada!
Quer enfrentar seu medo de verdade? assuma-o!
E não tenha vergonha. Ter medos e anseios te faz humana. E eu com meu medo de ondas????
Beijos

Bah said...

Meu, eu tenho medo de anões. Tanto é que relutei e ver game of thrones por causa do tyrion lannister, que é interpretado por um anão... Mas ver na tv é diferente de ver ao vivo. Odeio ser preconceituosa, mas acho que isso é um trauma de alguma coisa q eu não me lembro rs... talvez os umpa-lumpa da fábrica de chocolate, não sei rs

Kisu!

Fulana said...

Anônima, venha sempre que quiser! E quando quiser fazer um blogue, me conte que vou ler! rs

Pessoas, obrigada pelo apoio, mesmo sem entender exatamente o que era. Vocês mal sabem, mas partilhei algo muito importante com vocês! Não vou especificar o que é, porque se trata de algo bastante íntimo, e isso, Olívia, não quer dizer que não o assuma. Não é porque eu não postei na internet que eu não enfrentei ele de verdade. Tenho certeza que você vai entender isso :)
Bah, eu e você temos uma coisa chamada nanofobia! Existe! E vamos superar! rs
Aliás, vou começar assistindo esse negócio aí que você me disse, para ir me acostumando com os anões pela TV, antes de vê-los na vida real...

Nay said...

Agora, toda vez que vejo anões lembro de você. Ó céus!! kkkkk

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