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Monday, January 30, 2012

Danilo, vai se foder.

Nem todo mundo que me lê me conhece pessoalmente. Problemas de auto-estima à parte, tenho a perfeita noção de que a minha aparência, loira de olhos azuis alta e magra, é socialmente aceita em todos os ambientes pelos quais circulo. Imediatamente quando entro numa lanchonete ou restaurante, ou mesmo numa loja, a relação de subserviência entre mim e o garçom ou o prestador de serviço se estabelece como se eu fosse milionária, como se eu fosse muito mais que ele. Inúmeras vezes as pessoas me fizeram favores, facilitaram meu acesso a determinados serviços, me deram coisas aleatórias, simplesmente porque simpatizaram comigo imediatamente. Nunca fui rejeitada numa entrevista de emprego; parte significativa disso sempre se deu por ter essa carinha de menina classe média criada a Danoninho.
Eventualmente, tenho dificuldades em fazer impor a minha posição sobre determinadas coisas, porque a despeito de minha aparência ser socialmente aceita, também suscita reflexões que levam as pessoas a considerarem que tenho pouca capacidade de discernimento, que me falta inteligência ou mesmo competência para dar cabo de algumas tarefas. Em português mais claro, sou mais facilmente taxada de "burra", e geralmente ninguém espera de mim grandes feitos intelectuais. Passo, assim, a vida a provar aos outros que não só não sou burra, mas que também sou capaz de decidir por mim mesma quais são as melhores opções. Nunca, mas nunca mesmo, dei risada de uma piada de loira ou as reproduzi. Mesmo assim, caso eu cometa algum deslize ou distração, que qualquer pessoa comete de vez em quando, isso é imediatamente atribuído ao fato de eu ter nascido loira. É, não faz sentido pra mim também. Mas as pessoas acham isso engraçado. Como eu não acho nada engraçado ter minha capacidade intelectual colocada à prova, principalmente vinculando isso à cor dos meus cabelos, eu nunca rio, fico brava e pouco me interessa se a piada é leve, grosseira, bem bolada ou o que for. Não gosto que se divirtam à minha custa usando minha aparência como motor da piada. Live with that.
Apesar de todo esse preâmbulo, receio que meus problemas não sejam nada perto de uma pessoa negra. Ninguém nunca pensou que eu estivesse com intenção de cometer furtos no supermercado, episódio bastante corriqueiro relatado por centenas de pessoas. Tampouco dizem que um serviço malfeito é um serviço "de loira", como costumam falar dos serviços "de negro". Tampouco vi minha família ser presa, violentada, castigada, e tampouco tenho poucas gerações atrás a marca do couro cravado na carne de minha avó. Ninguém nunca me mandou prender os cabelos, criticou a grossura de meus lábios ou de meu nariz. Jamais fui barrada em qualquer estabelecimento, ou julgada capaz de cometer alguma maldade apenas por minha aparência. Não sou eu que, olhando numa sala com mais de 100 pessoas, não vejo ninguém da mesma cor que eu. Tampouco sou eu que recebo o salário menor (e isso não sou eu quem invento, é o IBGE que computa) apenas porque sou negra. Assim, sou perfeitamente capaz de entender porque um humor "inocente" (sic) ofende tão imediatamente a tantas pessoas. Elas estão de saco cheio de serem julgadas, ofendidas, humilhadas, reconhecidas pela sua cor, embora façam um monte de coisas além de simplesmente serem negras.
Por uma sorte qualquer, sou heterossexual. E assim, nunca fui vítima de nenhum estuprador querendo me "ensinar a ser mulher", tampouco fui abordada num bar ou qualquer estabelecimento exigindo que eu e meu namorado parássemos de nos beijar. Embora tenha gente que diga que "quando há exageros, seja o casal hétero ou homossexual, sempre serão reprimidos", a repressão ao casal hétero geralmente não ultrapassa o limite das palavras. Assim não se dá com os casais homossexuais que apanham diariamente em espaços como a Avenida Paulista ou milhares de outros recônditos do nosso Brasil. Assim como não me divirto com piadas ou teorizações sobre as minhas práticas sexuais, entendo perfeitamente que os homossexuais não se sintam à vontade com as inúmeras piadas, veladas ou abertas, feitas sobre as suas preferências sexuais. E não é por causa de uma "mera piadinha" que se ofendem tanto; é porque passam a vida ouvindo "meras piadinhas" o dia todo. Sério. Enche o saco.
Então eis que surge um humorista brasileiro qualquer e me diz que “todo mundo ri com piada de gay ou de loira”. Eu não. Eu não rio, nem faço piada desse tipo. Tenho inúmeros amigos e colegas que tampouco são adeptos dessa prática. Isso significa que sou uma pessoa séria, que nunca ri? Garanto que sempre tenho do que rir. E que eventualmente, rio das pessoas, de algo que elas fizeram, de uma salsinha no meio do dente. Nunca de algo com o qual elas nasceram, e do qual não deveriam ter que se envergonhar ou rir amarelo, para não entrar em conflito. Tem gente que acha que reclamar disso é “modinha”, e que virou “palhaçada”; essas pessoas certamente não entendem o tamanho da opressão que se expressa de maneiras sutis, e também no humor. O humor reflete várias coisas, reflete a cultura de uma sociedade. A gente ri de negros, gays, mulheres, loiras, e os coloca em situações pejorativas nas piadas porque? Porque nessas piadas as pessoas precisam ter cor?
A palhaçada, pra mim, já começou há muito tempo. E não é a reação, mais que justa, de quem se sente ofendido. Aliás, caso eu profira alguma piada que ofenda alguma pessoa e ela me reportar isso, a primeira coisa que vou fazer é me desculpar, a segunda é nunca mais repeti-la. Se se tratar de uma parcela expressiva da sociedade, representada em entidade associativa, mais ainda. Aqui, quem define o exagero, não é quem faz a piada: é quem é alvo dela. É muito fácil, espectador da realidade, achar que determinada pessoa exagerou na reação ou que não era pra tanto. Na boa, se não foi com você, baixa a bolinha. Você não sabe o que foi que essa pessoa aturou até hoje para não aceitar determinadas brincadeiras.
Espero, caso realmente seja uma moda, que essa moda pegue e fique. Das pessoas não aceitarem o humor rasteiro, preconceituoso e pejorativo. Das pessoas, que se dizem tão inteligentes (quando é pra criticar a tal da Luiza que estava no Canadá), não consigam achar graça de humores tão desprovidos de conteúdo como esses.

4 comments:

Luana said...

Quem eh Danilo?

Eu tentei falar exatamente isso naquele meu texto sobre "quem sofre mais". A minha mãe eh como você, loira, olhos claros. Ja meu pai era negro. Pergunta quem passou por situações mais humilhantes? Logico que ela sofre desse estigma da "loira burra", mas não se compara!

Eu não faco piada desse tipo com ninguém! Nao vejo graça e não acho que a vitima que tem que se acostumar, eh o agressor. Porque piada ofensiva eh uma agressão.

Dai todo mundo vem e fala "ai, esse politicamente correto eh um saco".... Opa, então vamos xingar, humilhar, ofender todo mundo! Vamos usar nossas piadas para esconder nossos preconceitos e ignorâncias...

Fulana said...

hehehehe Luana, Danilo Gentilli é aquele humorista brasileiro muito "na modinha" como diz o povo...tentei comentar no teu blog hoje e nao consegui!

Luana said...

Ahhhh.... sei quem eh! mas ele eh um bobo, nossa

Ue? Que sera que houve com meu blog? vou dar uma olhada

Taís e Paula said...

Eu parei de ver o CQC por causa daquele Rafinha, q é um nojento. Acho tdos eles nojentos, na verdade. Racistas, machistas, todos os istas q se puder pensar. Adorei o post! Beijos da Taís.

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