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Thursday, December 25, 2008

Decepciones en Chile

A primeira foi no dia de ontem, com os homens chilenos. Passei o dia inteiro me sentindo qualquer coisa semelhante a um pedaço de carne diante de um bando de cachorros de rua, diante das caras famintas, gulosas e taradas que eles faziam: abrindo as narinas, passando a língua pelos beiços e coisas piores. Praticamente uma caricatura de desenho animado, algo como aquele gambá que sai perseguindo enlouquecidamente aquela gata que sempre toma uma lata de tinta que a deixa parecendo uma gamboa.
A segunda foi ontem, na véspera de Natal. Já sei que aqui os frutos do mar sao abundantes e portanto baratos, inclusive o salmao. Entao eu pedi um salmón a la nao sei o que, e lá veio ele... Frito na manteiga! Tens noçao da heresia? Profanaram um peixe sagrado, fritando-o na manteiga como se fosse uma fatia de mortadela, ou um bife de péssima qualidade... Mal se sentia o sabor do peixe, eu só sabia o que comia pela cor. Uma verdadeira lástima!

Friday, December 19, 2008

Natal no Chile

Vou dia 23 e volto dia 28.
E quando tu achas que encontraste o caminho, tem um deslizamento de pedras!

Saturday, December 13, 2008

E a viagem, afinal?

Essa foto não está no orkut. É de uma pracinha bem corriqueira por lá, do tipo que se tem várias, e as pessoas vivem nelas. Isso pra mim é bastante estranho, essa cultura de ir pra rua depois do trabalho. Nessa aí a gente passou muitas horas, vendo a chuva amarela (cujos vestígios vocês podem observar no chão), as crianças e os cachorros brincarem. Esse negócio de não ter pressa, isso pra mim é o máximo! Odeio que me apressem, odeio ter horário pra fazer as coisas. Eu só trabalho 2x por semana, e eu odeio com força ter que me arrumar com hora pra acabar. Meu trabalho é as 10h e eu acordo com mais de 2h de antecedência, pra fazer tudo o menos apressadamente possível. Mas, voltando a Buenos Aires, eu tinha esquecido um pouco o quanto é bela. A arquitetura, o tamanhão da cidade, essa coisa de tudo funcionar. De ter ônibus, trem, táxi barato... Uma cidade sem ladeiras também me atrai, dá pra andar muito mais. Confesso que achei que andaria mais (mais que as 4-5h em média que andei? muito mais!), mas estou realmente ficando velha. Ao final, tudo doía e custava. Já sou uma jovem senhora de 24 anos que sente o peso de cada um deles quando faz estripolias. Tomei umas cervejas por lá, mas estava calor demais pra vinho. A cerveja é fraca e servida em temperatura muito alta pro gosto dos brasileiros. Como eu sou uma viciada em comida assumida, é lógico que o que mais me marca sempre é os hábitos alimentares dos povos: e como estava numa terra de verdadeiros mestres em panificação e confecção dos mais variados e lindos doces, fui feliz e não nego. Tenho a mais absoluta certeza que um padeiro argentino enriqueceria fazendo suas obras de arte por aqui! Além disso, consumi muitas e muitas frutas vermelhas: os morangos de lá têm uma coloração quase amarronzada, que dá a impressão de morango passado, mas na realidade, ainda estão doces e suculentos como nunca havia experimentado. Prometi a mim mesma nunca mais enfiar essa coisa azeda, cara e com gosto de plástico que temos aqui no Brasil na boca novamente. Também tinham cerejas frescas, que eram comidas aos punhados várias vezes por dia, tão deliciosas que nem sei descrevê-las. Isso me lembra que cometemos um pequeno desrespeito às leis sanitárias vigentes, trazendo uma amostra dessas duas frutas na mochila. Infelizmente os morangos não resistiram, mas chegamos ao Brasil com algumas cerejas inteiras e sem irmos para a cadeia. Não sou muito fã de doces como o alfajor, por exemplo, portanto experimentei menos que se costuma fazer. Pra mim o melhor é o que leva a essência de laranja na receita, e quebra aquela doçura toda. Fora isso? Pontos turísticos, aula de tango, brasileiros na Argentina e um pouco de argentinos também. Vontade de ficar, vontade zero de ver artesanato e Mafalda por um bom tempo! Achei que pra ser a terra natal de Che, tinha até que poucas coisas dele! Flores perfumadas e lindas, o peso ainda valendo a pena em relação ao real, um albergue bonitinho, apesar do calor!

Tuesday, December 09, 2008

Era uma vez, numa pacata cidadezinha, um padeiro chamado Onofre. Onofre vendia pães e biscoitos que confeccionava na cozinha de sua casa, de porta em porta, com o auxílio de sua esposa, Brigite. Onofre conseguiu guardar um dinheiro da venda de seus pãezinhos, e como ele e Brigite passavam muitas horas na cozinha, acharam que seria uma boa hora para contratar um ajudante, no caso, um entregador. Foi assim que o Nelsinho, um menino bem pobre que soltava pipa ali no bairro foi "contratado" por 2 pãezinhos diários e mais R$20,00 por semana, para pedalar no sol e na chuva, sete dias por semana, carregando os pãezinhos de Onofre e Brigite - neste caso, muito mais de Brigite, pois Onofre, que era o "homem da casa", ficou mais cuidando das contas do que dos pãezinhos, e Brigite, que era mulher e meio tolinha, ficou no trabalho braçal, mesmo, já que lugar de mulher é na cozinha. Com o tempo, Brigite desenvolveu uma artrite que já não permitia que cozinhasse tanto, e foi nesse momento que a Claudinha, irmã mais nova de Nelsinho (14 anos), foi "pega para criar" por Brigite e Onofre, e passou a ganhar casa (que era ela quem limpava), comida (que era ela quem ia comprar e cozinhar) e roupa lavada (que era ela mesma quem lavava), além de mais R$10,00 por semana, já que ela "tinha de tudo" na casa dos patrões. Os pãezinhos, agora os pãezinhos e biscoitinhos de Claudinha, estavam ficando famosos e requisitados, e outros entregadores e assadoras foram sendo "contratados"; chegamos num ponto em que haviam 35 entregadores, 35 assadoras, Onofre cuidando das contas, e Brigite supervisionando as assadoras, o galpão vazio da esquina transformado numa grande cozinha. Foi quando se ouviu falar de um tal de imposto de renda, de um tal de direito trabalhista, e de um tal de alvará. Neste momento, o pobrezinho do seu Onofre, que vendia mil pãezinhos por dia, a R$10 centavos cada, faturando assim R$14mil por mês, e gastando R$4200 com esses entregadores e assadoras, se viu forçado a demitir vinte assadoras e vinte entregadores! Pois de repente, ele necessitava gastar muito mais com o pessoal que trabalhava, e se contratasse todo mundo conforme mandava a lei, ia acabar ficando no prejuízo, não é?
Foi mais ou menos por essa época também, que seu Onofre passou a se interessar por política. Na verdade, depois que os pãezinhos e biscoitinhos já estavam acalçando fama e sucesso nos arredores das outras cidadezinhas, seu Onofre precisava muito de um terrenão bem bonito, na beira do riacho, que serviria perfeitamente para montar uma fabriqueta bem melhor equipada, e com facilidade de escoar o esgoto ali mesmo, pelo riacho. Só que de tempos em tempos, vinham uns ecochatos dizerem que ali naquele terrenão onde ele podia montar um galpão todo lindo, com máquinas, estacionamento para os carros (pois agora ele havia investido em carros para fazer entregas nas padarias e mercadinhos da região), era área de preservação ambiental, terreno de utilidade pública onde toda a população podia se banhar no riacho, e não tinha jeito de vender. Então, como teriam eleições para prefeito naquele ano, ele foi lá e fez as contas (ele estava cada vez melhor em fazer contas, depois de tantos anos fazendo as contas dos pãezinhos e biscoitinhos!): foi assim que percebeu que poderia dar uma "ajudinha" de uns R$10mil reais para um candidato a prefeito muito amigo dele, que também achava que era muito importante para a cidadezinha uma fábrica, "para gerar empregos e desenvolver o local". Então, ele escolheu o candidato dele, e fez essa doação para a campanha. Como a cidade era pequena, deu para distribuir muito santinho, contratar alguns carros de som e ainda pagar uma churrascada pra todo mundo com esse dinheirinho. O prefeito Teobaldo então se elegeu, e logo nos primeiros dias de mandato, recebeu uma visita do seu Onofre, querendo ver se tinha jeito de comprar o terreno. O prefeito fez melhor: com uma emendinha aqui e ali nas leis, concedeu o terreno a seu Onofre, sem que ele precisasse pagar por isso e sem transferir os nomes. É como se no papel, nada disso fosse necessário, entende?
Assim ia funcionando a agora pomposa Mundo dos Pães. Os funcionários ganhavam em salário o equivalente a 500 pãezinhos (cujo preço aqui já tinha aumentado, com o preço do trigo) por mês, e faziam aproximadamente 500 pãezinhos por dia. Haja tanto pãozinho para seu Onofre, dona Brigite e seus amigos, como o seu Teobaldo! Mas os funcionários não reclamavam, iam lá fabricar seus pãezinhos e no final do dia, na padaria da esquina de casa, ainda compravam os pãezinhos da Mundo dos Pães, além de recomendar a todos os parentes e amigos que fizessem o mesmo, para que sempre tivessem emprego. Afinal, o emprego deles dependia do lucro do seu Onofre!
Lá na cidadezinha, pouco se ouvia falar em capitalismo, globalização ou coisas do tipo. Todo mundo tinha celular (apesar de poucas pessoas terem créditos!), pagava prestações na Renner (que havia chegado na cidadezinha alguns anos antes, com a primeira galeriazinha comercial mais chique), e jogava CS na lanhouse, moda que demorou mas um dia chegou lá também.
Foi portanto com grande espanto que um dia ouviram no Jornal Nacional que havia estourado uma tal de uma bolha imobiliária nos EUA, e que disso viria uma crise. Mas como assim? Que loucura casas virarem bolhas! Ainda bem que a vida aqui no interior é mais tranqüila...
Seu Onofre, no entanto, andava mais preocupado. De repente, seus amigos da Capital, que ele tinha feito no decorrer dos anos, donos de grandes hipermercados que vinham comprando seus múltiplos produtos de padaria, disseram que iam diminuir e muito as encomendas, pois "estavam em crise". Esses hipermercados, inclusive, tinham muitas filiais pelo mundo, e nessas também estava acontecendo o mesmo fenômeno. O que mais espantava o pessoal do hipermercado da Capital, era que Lula tinha dito a eles que não havia um problema no Brasil, apesar do nome da crise (mundial) nos fazer supor pela lógica, que teríamos problemas sim. Os pobrezinhos dos "donos brasileiros do hipermercado multinacional" não tinham culpa, mas a matriz, lá na França, mandou cortar gastos. Foi assim que mandaram muitos caixas para a rua, além do pessoal da limpeza, que agora tinha de poupar muito mais para poder comprar os produtos da Mundo dos Pães.
Seu Onofre se desesperou e foi lá bater na porta de seu amigo Teobaldo, prefeito que tanto o ajudou a conseguir aquele terrenão todo para a fábrica: explicou que estava com dificuldades para conseguir lucrar milhares de pãezinhos em cima de cada funcionário, e isso vinha prejudicando sua relação com os investidores que arranjou no momento em que ouviu falar de um tal de mercado de ações, um lugar onde as pessoas vendem o Nada pelo preço de um tesouro.
Seu Teobaldo, que nunca esquece a ajuda de um amigo, como no caso de seu Onofre nas eleições, foi logo lá e pegou o dinheiro que tinha separado para a construção de um hospital, 3 creches e 4 escolas, e comprou todas as ações da Mundo dos Pães. Se o problema era esse, estava resolvido! A população, que era toda empregada na fábrica, ia aprovar a iniciativa, pois estava salvando os empregos de todo mundo.
Infelizmente, seu Onofre continuou com muitas dificuldades para vender seus produtos e continuar faturando seus suados (com o suor dos outros) pãezinhos. Como já era quase Natal, chamou todo mundo no pátio do terrenão e disse que naquele verão, ia ter férias pra todo mundo! O pessoal achou o máximo, feliz da vida que ia poder passar um mês descansando.
O problema foi que na metade desse mês, chegou uma carta na casa de metade dos funcionários, explicando que eles tinham sido demitidos, e o motivo era que seu Onofre precisava cortar gastos para enfrentar a crise. Sem esse corte, como ele faria para faturar seus pãezinhos?
A partir daí, a situação vai ficando mais complicada. O Anderson, operário da fábrica de pães, não foi demitido, mas passou a fazer o trabalho de dois, no mesmo período de tempo. Em compensação, a Juliana, que foi demitida, já não tinha mais salário para comprar os pães na padaria, até porque eles estavam ficando meio caros! E como os pães não tinham tantos compradores, em pouco tempo, começaram a ficar encalhados no estoque...
Anderson estava tão ou mais preocupado quanto seu Onofre. Ele já ajudava em casa desde os 16 anos, quando entrou para a Mundo dos Pães como estagiário e fazia todas as funções de um office boy. Estava com 19, e acabando o supletivo, pois no segundo ano, quando foi contratado como funcionário mesmo da casa, passou a pegar o turno da noite, o único que a escola municipal oferecia para Ensino Médio. Agora, vinha freqüentando este novo modelo de educação implementado por Teobaldo e seus parceiros, no qual bastava que ele fizesse as provas de tempos em tempos. Era bom para ele, que estudava os módulos em casa, e melhor ainda para os parceiros de Teobaldo, que tinham as salas de aula da escola pública livres vários dias na semana para oferecer alguns cursos pagos, de línguas estrangeiras por exemplo. Quando chegava no dia da folga de Anderson (que ele não tem certeza de quando será, pois na fábrica as folgas são por rodízio de dias), ele geralmente aproveitava o fato de estar matriculado na escola municipal para ir ao cineminha da cidade, pagando metade do ingresso. Infelizmente, na sua última folga, quiseram cobrar o preço do ingresso inteiro, pois a lei da meia-entrada foi reduzida no Brasil, e isto, ao contrário de outras tecnologias e serviços, rapidinho chegou no interior! Assim, ele parou de ir ao cinema nas folgas, pois já estava ficando muito caro no orçamento.
O que para algumas pessoas parecia uma esperança era o fato de que Bruninho, filho de seu Onofre, estava estudando Administração na capital, e assim que se formasse poderia assumir os negócios da família. Essas pessoas pensavam: há tantos anos seu Onofre separa os pãezinhos para sustentar a si e sua família, com certeza esse menino, que aproveitou os pãezinhos para ir na faculdade, dará um jeito nessa crise toda!
Outras pessoas, no entanto, estavam muito desiludidas. Começaram a também ficar boas de contas, como o Seu Onofre, e calcularam o preço do trigo, do fermento, do gás do forno, e concluíram que mesmo com os gastos com essas coisas, era possível que seu Onofre dividisse bem mais os seus pãezinhos. Se eles conseguiam viver com tão poucos pãezinhos, por que o seu Onofre precisava continuar recolhendo tantos pãezinhos para a sua pequena família? Não era justo. Os pãezinhos passavam pelas mãos de muitas pessoas, que trabalhavam muito para que eles fossem parar nas padarias. E o prefeito Teobaldo ainda dava mais dinheiro das escolas e hospitais para que seu Onofre continuasse tendo seus pãezinhos. Estava na hora de fazer alguma coisa! Até por que, muitas crianças precisavam daquele hospital, depois que a água do riacho se tornou tão poluída que adoeceu muita gente. Seu Onofre estava agora com nosso riacho, nossas escolas, nossas creches, nosso hospital, e com nossos pãezinhos! Ele precisava mesmo, de tudo isso?
Não fazia sentido. As pessoas passaram a conversar entre si que seu Onofre dependia muito mais delas que o contrário. No entanto, como é que ele conseguia fazer com que toda a cidade fizesse o que ele queria, assim como ele fazia com dona Brigite desde que se casaram?
Estava a cidade toda diante de um impasse. Ou tirava os pãezinhos de seu Onofre a qualquer custo, ou ele triunfaria sobre sua montanha de pãezinhos apodrecidos. Só que esta história, depende muito mais da vontade do pessoal que foi demitido e que ainda trabalha na Mundo dos Pães, que da boa vontade de seu Onofre...

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